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Beloved – Resendria #01

Já faz um tempo que me pego indagando se existe de fato algum anime ou mangá de romance que consiga saciar minha curiosidade no que tange o tema. Confesso que a ideia de não existir romance bem feito no oriente pipocou no meu cérebro. E isso muito se deve ao caráter sensacionalista que os autores tomam, às vezes para corroborar com as exigências de uma revista ou produtora, às vezes para agradar um público pobre espiritualmente ou apenas para se inserir em sua própria criação.

O ponto todo é que essa cultura afetou negativamente minha experiência enquanto interlocutor. Os clichês que outrora eram apenas “bobinhos” e inofensivos, foram tão amplamente difundidos que chegaram a ser repetitivos; maçantes; previsíveis. Contudo, talvez como forma de eu me arrepender profundamente do que uma vez já tinha minimamente pensado, conheci de maneira aleatória um mangá chamado Beloved

Beloved ou Qin Ai Di L no original, é um quadrinho chinês publicado digitalmente no formato de manhua. Sua autora, Wubao, não é propriamente uma quadrinista, tendo feito apenas dois trabalhos nessa área. Talvez por vir de um lugar diferente do que costumamos consumir ou por não ser dessa mídia, o fato é que a história que essa mulher desenvolveu me encantou de tal forma que eu não poderia passar a chance de escrever um artigo sobre o mesmo. 

A história se passa na República Popular da China, acompanhando o cotidiano de Wei Wei, uma oftalmologista de 34 anos que se relacionou com uma jovem colegial, Ding Yi. Numa primeira análise, a premissa não parece tão complexa, mas quando se toma consciência do lugar em que se passa, o gênero sexual e a diferença de idade entre elas, já dá para se ter uma ideia que o assunto tratado é, no mínimo, delicado. E quando somado ao fato da arte ser toda aquarelada, recheada de longas cenas que só são possíveis nesse formato de manhua, as cores ora monocromáticas, ora pastéis conversando com os diálogos afiados, não poderia constatar outra coisa senão o empenho da autora em escrever isso.

Mas apesar de todos os elogios feitos, eu não conseguia entender o porquê de ficar tão cativado. Afinal, o que uma obra chinesa poderia ter de tão diferente das tantas outras japonesas eu já consumi? Foi tentando entender isso que recorri a algo que não fazia já há muito tempo: voltei-me aos postulados filosóficos. 

Depois de tediosos mas extremamente didáticos artigos sobre estética e arte, cheguei em hipóteses à pergunta que me alienava. A grande questão é que muitas vezes a arte é apenas um instrumento para materializar a vaidade do leitor que ali se espelha. É uma forma de satisfazer o ego oprimido por uma realidade dura através do lúdico. 

Pegando como exemplo Horimiya, um anime que vem aumentando sua comunidade mais e mais, principalmente por ser considerado o “romance sem enrolação”. Será que sem o fato do protagonista ser um nerd anti social que conquista a garota mais popular da sala e atrai atenção de todas as outras garotas depois de um simples corte de cabelo, a obra continuaria fazendo sucesso? Tudo é tão idealizado, tão próprio para o consumidor médio que leva-me a questionar a autenticidade que o gênero requer.

 E é por isso que eu valorizo tanto Beloved, é a realização do fato de que as personagens ali, apesar de todas as suas pautas, não servem para uma imposição externa, mas para sua própria vontade. Quero dizer, mesmo que haja sim um discurso inclusivo que inevitavelmente marcará o leitor, isso não passa de uma consequência indireta do quão sensível e intimista o mangá é em primeira instância. Lembrando aqui que a Wubao é uma designer, ou seja, o incentivo para ela escrever histórias é tão somente sua própria criatividade e não o retorno financeiro, ela escreve apenas por querer expor algo sincero em cada página.

Gosto de pensar que essa obra marcou a ruptura de diversos paradigmas que eu mesmo criei, como a depreciação do romance, além do desdém que eu nutri por outros espaços de publicação fora do Japão. E eu espero muito que quando vocês lerem, se lerem, sintam-se cativados como eu fiquei. 

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