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The Night is Short, Walk on Girl – Resendria #02

Corriqueiramente me perguntam se obras animadas podem se comparar com produções live action. De fato, é bastante complexo pensar nisso, pois, em primeira análise, há quase sempre uma suspensão de descrença no que está sendo posto ali. De um jeito ou de outro, a animação sempre será mais fantasiosa que um filme. Então, partindo desse pressuposto, surge a pergunta: seria possível uma obra animada, mesmo com todas as barreiras visuais, trabalhar assuntos reais, tais como em live action, em uma intensidade igual ou superior? 

The Night is Short, Walk on Girl (que para fins práticos, chamarei apenas de Night is Short) ou como no original Yoru wa Mijikashi Arukeyo Otome, é um filme lançado em 2017 pelo estúdio Science SARU e dirigido pelo Masaaki Yuasa, o mesmo diretor de outros títulos de renome como Keep Your Hands Off Eizouken (2020) e Devilman Crybaby (2018).

Para aqueles com os olhos mais atentos, podem observar que o design de personagem é feito pelo Yuusuke Nakamura, o mesmo designer de The Tatami Galaxy (2010). E não por acaso, essas duas obras possuem ligação íntima, seja por ser do mesmo autor ou por possuir partes de um mesmo elenco. O ponto é que essa tomada de decisão é tão importante para o filme que é indispensável que o telespectador tenha visto Tatami Galaxy antes, então se não viu, veja!

Apesar disso, Night is Short consegue trabalhar um tema totalmente novo que ficou de fora da série de TV, e é sobre isso que eu queria expor aqui. Mesmo que beba da mesma fonte do tema “Eu e o Outro” de uma perspectiva inegavelmente freudiana, o filme fala também da necessidade inata do ser humano em construir metas – metas as quais nunca se realizarão. 

Pulando um pouco para os personagens, seus apelidos refletem simbolicamente no juízo que o protagonista tem a respeito da situação. Por exemplo, ele se auto denomina Senpai, que para todos os efeitos significa alguém superior com quem se pode contar. E pelo fato dele nunca ter trocado uma palavra com a garota, ele a chamou de, em tradução livre, Garota dos Cabelos Pretos. É curioso que não há menção hora alguma sobre seus reais nomes e isso revela o caráter superficial que a relação dos dois têm. 

Não há nada realmente que aproxime os dois, trata-se de uma verdadeira dicotomia. Enquanto ele é completamente acanhado, introvertido, segurando-se em objetivos que nunca dão certo por sua falta de iniciativa. A garota é toda segura de si, completamente despreocupada com o todo e apenas se importando em viver o agora. 

O que fica evidente ao final do filme é que há um protesto explícito em renegar o grandioso em prol de uma felicidade pacata. Essa grandiosidade que estou me referindo são os diversos sonhos que criamos na expectativa de enganar a si mesmo em relação a um progresso pessoal. O tempo é muito curto para o muito que se espera, então, só talvez, não fazer planos seja o melhor plano para ser feliz.

Essa mensagem um tanto estoica do filme diz muito sobre a pós-modernidade, que abraça essa ganância por status, riqueza e conexões. A famosa frase “O que você quer ser quando crescer?” É a maior evidência do pretensiosismo arraigado nas pessoas, como se fosse realmente possível responder uma pergunta que nem sequer é clara. Esse estado cíclico de tirar notas boas, passar na prova, ir para faculdade, trabalhar, ter um filho e esse filho repetir o mesmo ciclo assim como seu pai e o pai dele antes disso só fomenta mais ainda o esvaziamento de sentido existencial que acomete todas as idades em nossa época. 

Acho realmente fascinante como Night is Short – um filme animado japonês – chega na mesma conclusão que Another Brick in The Wall – uma música britânica – e Sociedade dos Poetas Mortos – um filme live action americano. Apesar de serem publicados em épocas diferentes, em lugares diferentes, com contextos diferentes, a mensagem ainda se mantém, como que para dizer que há sim uma universalidade quando falamos do tempo e mais ainda sua íntima relação com a curta vida humana. E é pensando nesse fenômeno que voltamos à pergunta inicial do artigo para dizer que é sim possível trabalhar qualquer tema em qualquer área da arte na mesma profundidade. 

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