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Gon – Resendria #03

Quando pensamos em historiografia da arte, conseguimos observar que todas as revoluções foram antecedidas por crises. Essas crises sempre se manifestaram de maneira diferente, mas a priori podemos dizer que sempre envolveram esgotamento da criatividade. E mesmo que a mídia de animes e mangás seja relativamente nova, ela já passa por sua própria crise. No caso, há diversos fatores que contribuem para que essa crise ocorra, mas um dos elementos principais e o que eu quero comentar neste texto é sobre a expositividade, mais especificamente como ela se apresenta (ou não se apresenta) em Gon.

Gon é um mangá de 1992, escrito e ilustrado por Masashi Tanaka. A trama envolve o cotidiano de um dinossauro anão lidando com o reino animal o qual conhecemos atualmente. A obra dentre todas as suas peculiaridades ficou conhecido principalmente por sua arte realista e a ausência de diálogos ao longo dos capítulos. De fato, Gon é um mangá bastante atípico, o simples fato de não possuir personagens humanos já seria o bastante para ter uma identidade própria, mas vai muito além disso. 

É rotineiro em animes e mangás o uso excessivo de recursos textuais para se explicar algo importante numa história, por exemplo longos diálogos que não fazem sentido nenhum os personagens terem, mas estão lá para o telespectador ficar a par daquele universo. Essa medida pode ser vista muitas vezes como inofensiva, ainda mais pelo número de vezes que é aplicado. Mas da minha perspectiva eu não consigo deixar de pensar nisso como uma forma preguiçosa de resolver esse problema, pois em última análise ridiculariza a inteligência do telespectador e trata o personagem como um imbecil que fala o que deveria ser óbvio para ele mesmo. A pergunta que fica é: se pelo textual é ruim, como seria feito então?

E é tentando responder essa pergunta que chegamos à técnica cinematográfica chamada “show, don’t tell”, que para o leitor leigo significa em outras palavras: mostrar a informação invés de contá-la. E Gon leva isso muito a sério, tão a sério que sequer algo é contado! Pelo simples fato de não haver diálogos, haja vista a baixa capacidade cognitiva dos animais, todos os elementos da trama são insinuados a partir do aspecto visual do mangá. Essa decisão traz consigo uma naturalidade e espontaneidade muito necessária numa história sobre vida na selva. 

Pelo fato do protagonista ser desenhado anatomicamente de forma fantasiosa, há um contraste interessante na relação do mesmo com a natureza. Enquanto um é representado da forma mais caricata possível, o outro é desenhado minuciosamente para projetar um cenário mais real. É como se o todo tentasse engolir o Gon por sua expressiva diferença, como se ele estivesse errado em estar naquele contexto. O que é um tanto quanto óbvio, os dinossauros não conviveram com animais silvestres. Mas se por um lado há essa opressão sistematizada, por outro o que há é um protesto ativo feito pelo Gon em prol da sua própria sobrevivência, clamando por seu direito de estar ali. E há uma certa satisfação quando se percebe que ele resolve seus problemas usando a cabeça. Não as garras, nem suas patas, mas sua cabeça. É quase como se o personagem questionasse o leitor a respeito do seu lugar nesse mundo, do tipo: “Ei, todos estão contra mim também, mas eu estou fazendo algo para mudar… e você?” e isso é simplesmente genial. Genial de várias formas, mas em sua essência desperta no leitor uma reflexão sobre sua própria posição social.

Apesar de todo o episteme levantado acima, de forma alguma Gon é um mangá pedante. Pelo contrário, ele vai passar capítulos inteiros em situações assumidamente cômicas, como viver entre pinguins ou usar um leão como montaria. E tenho que admitir, isso é muito legal! Essa simplicidade que eu relato advém muito da auto consciência do autor, que sabe conduzir bem a história, então toda a crítica continua ali, talvez só diferente do que estamos habituados. E eu encerro essa resenha com uma descrição do Gon e acredito que ela ilustra muito bem tudo o que o personagem é em sua essência: “Não acredite nas aparências: Gon é pequeno mas terrível, amável mas inteligente, divertido mas selvagem. Para conhecê-lo melhor, palavras não bastam. Não o trate como seu mascote, você não sobreviverá!”.

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