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Annarasumanara – Resendria #05

Você acredita em mágica? É assim que o mangá do autor sul coreano Il-Kwon Ha começa. Annarasumanara é uma obra publicada em 2010 e desde lá vem conquistando fãs por todo o mundo, não só por sua estética mas principalmente por seu discurso atemporal que marca as pessoas até hoje. De fato a obra é muito famosa e é com um pesar que eu admito que o manhwa foi tão dispersamente comentado no Brasil. Geralmente quando falamos de mangá coreano é quase que instintivo associar ao clichê de fantasia de ação, e é inegável que os maiores sucessos são realmente desse gênero, mas há uma certa injustiça em ignorar todos os autores que se arriscam a escrever sobre assuntos mais espinhentos. 

Annarasumanara, por exemplo, vai passar capítulos inteiros seguindo o cotidiano da jovem Ah-Ee Yoon e sua vida miserável como dona de casa depois de ser abandonada por seus pais. Nesse contexto, ela precisa lidar com a tarefa de conseguir dinheiro para se sustentar e estudar para as provas do Ensino Médio. Sua vida de certa forma é monótona até encontrar um mágico chamado L, o qual desencadeia diversos eventos que mudam a vida da protagonista.

A premissa é bem original mas ela por si só não ressalta o real valor da obra, na verdade a única forma de enxergar a obra como ela realmente é, é entendendo o local onde ela está sendo publicada, a Coreia do Sul. É de senso comum que a vida na Coreia é muito boa, sendo considerado um país bastante desenvolvido mesmo em comparação com o padrão europeu. Porém a herança da Guerra da Coreia impulsionada pelas superpotências da época deixaram cicatrizes profundas. Sendo vítimas do Imperialismo Americano, o povo sul coreano se embriagou com o capitalismo tardio e abandonou toda a tradicionalidade que um dia já tiveram, foram completamente devorados economicamente, culturalmente e intelectualmente. Talvez o maior símbolo de sua revitalização foi o sucesso que o K-Pop atingiu mundialmente, mas que mesmo esse não passa de uma reciclagem do que um dia as boy bands americanas foram. Assim como outros países dominados pelo consumismo, eles se tornaram escravos do dinheiro.

E é nesse contexto que Annarasumanara vai ser contado, a protagonista pensa exatamente como descrito acima, vendo que a pobreza é algo indesejado, ela escolhe reprimir seus sonhos se isso garantir a ela um futuro mais digno, com mais riqueza. E é refutando completamente essa sociedade alienada que a figura de L aparece, ele é um ser estranho em meio a toda aquela fetichização do capital. Suas mágicas ao mesmo tempo que são fantasiosas e até mesmo julgadas como irreais, são também um ato de irreverência a esse sistema decrépito. Sabendo que os adultos já estão seduzidos por esse paradigma econômico, L sabiamente se volta a cativar as crianças, elas que ainda estão em sua maior inocência ainda não foram corrompidas por essa sociedade, podem genuinamente acreditar em mágica.

Mas a mágica aqui não significa meramente ao que o personagem consegue fazer em cima do palco, não, a mágica é uma metáfora para todo o ímpeto rebelde e inconformista que todos nós possuímos. A mágica é imaginar toda as pessoas vivendo pelo hoje. É imaginar todas as pessoas vivendo a vida em paz. Durante a trama muitas pessoas, acusam o L de ser um sonhador, mas ele não é o único. E esse fato é de extrema importância, é justamente por não estar sozinho que ele não pode ser ignorado.

Embora haja diversos elogios a serem feitos ao mangá, há sempre a possibilidade de você não gostar, isso ocorre com qualquer coisa, mas é acentuado principalmente nessa obra. E se isso acontecer, pode ser que você tenha se tornado um adulto normal.

“As pessoas grandes não compreendem nada sozinhas […] Mas nós, nós que compreendemos a vida, nós não ligamos aos números! Gostaria de ter começado esta história à moda dos contos de fada”.

O Pequeno Príncipe

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